Há algumas semanas, Edilson Barros foi acordado pelo filho de 14 anos. O menino lhe disse que havia gente morando no quintal. Uma família de uma dúzia de venezuelanos acampava atrás da casa, na cidade de Pacaraima (Roraima), na fronteira com a Venezuela.

Belquis Torres e sua família tinham uma barraca, um varal, várias malas e algumas cadeiras de plástico. A venezuelana, vestindo uma saia e uma blusa inusitadamente arrumadas, passa boa parte de seus dias com seus parentes em uma espécie de sala de estar ao ar livre, a poucos metros da demarcação fronteiriça.

Barros leva água para eles de vez em quando. O técnico de refrigeração de 50 anos, que divide dois quartos com a mulher e sete filhos, diz não cobrar aluguel dos venezuelanos porque “eles não têm onde ir”. Mas receia que fiquem tempo demais e tragam problemas.

Por vários países da América do Sul, uma enxurrada de venezuelanos desesperados pressiona os serviços públicos, a hospitalidade local e a vontade política para acomodá-los. A coexistência improvisada das famílias Barros e Torres ilustra o quanto a situação está piorando no Norte do Brasil, onde os pobres estão convivendo com a chegada de pessoas ainda mais pobres. Após deixar para trás a fome e a hiperinflação e tendo pela frente centenas de quilômetros de estradas desconhecidas e uma recepção cada vez mais hostil, uma comunidade está fincando base em Pacaraima.

“Se houver novos ataques contra nós, posso correr 200 metros e atravessar a fronteira de volta à Venezuela. Mas me sentiria muito mais vulnerável em Boa Vista ou outra cidade longe da fronteira”, diz Alfredo Rodriguez, um vigilante desempregado que se protegia do sol na sombra de um ônibus sucateado perto do posto fronteiriço.

Em comparação com os venezuelanos que fogem para Colômbia, Peru ou Equador, muitos dos que chegam ao Brasil têm ainda menos conexões e recursos. Grande parte vem de comunidades indígenas e rurais pobres, mal falam português e moram em barracas ou nas ruas.


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