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Home»Entretenimento»A indústria milionária das séries de amor lésbico tailandesas que conquistaram dezenas de países — inclusive o Brasil
Entretenimento

A indústria milionária das séries de amor lésbico tailandesas que conquistaram dezenas de países — inclusive o Brasil

janeiro 23, 2026Nenhum comentário0 Visitas

O que começou como uma experiência deu origem a um novo gênero de séries dramáticas que agora conquistam o mundo
GMMTV via BBC
Ongsa começa sua vida em uma nova escola se sentindo nervosa e alienada, mas quando conhece Sun, uma das garotas mais populares, a solitária garota se apaixona à primeira vista.
Com medo de compartilhar seus sentimentos, Ongsa usa o nome de usuário “Earth” no Instagram para mandar mensagens para Sun, mas Sun presume que seu admirador secreto seja um garoto.
Ongsa então se torna amiga de Sun na vida real, enquanto continua conversando com ela online sob um pseudônimo.
Mas a tensão emocional de manter seu relacionamento em segredo faz com que o casal termine logo.
Veja os vídeos que estão em alta no g1
“Eu tinha medo de que as pessoas te criticassem por estar com alguém como eu”, chora Ongsa.
Mas em um reencontro feliz, uma Sun sorridente responde: “Eu não me importo com outras pessoas — eu só me importo com você.”
O que começou como um experimento — adicionar um casal lésbico a um elenco de personagens gays em uma série chamada Bad Buddy — gerou um gênero totalmente novo de dramas televisivos que agora conquistam o mundo.
LEIA MAIS: O que são microdramas? E como as novelinhas verticais devem causar uma reviravolta no mercado
Como (e por que) casal Lorena e Juquinha, de ‘Três Graças’, ganhou repercussão internacional
Já uma das exportações culturais de maior sucesso da Ásia, estimada em dezenas de milhões de dólares, o Girls’ Love (Amor entre Meninas, em tradução livre, ou às vezes chamado de Universo GL), como o gênero ficou conhecido, colocou a Tailândia no centro de um movimento em rápido crescimento que está remodelando a representação LGBT no entretenimento e redefinindo a cultura dos fãs em escala global.
“No início, não tínhamos muita certeza. Então, como diretora, experimentei adicionar um casal de mulheres a uma história BL [Boys’ Love, ou Amor Entre Meninos], especificamente as atrizes Milk e Love na história Bad Buddy”, disse Noppharnach Chaiyahwimhon, da produtora tailandesa GMMTV, à BBC News Thai, o serviço de notícias em tailandês da BBC.
E então, a enorme popularidade do casal entre os fãs online, interpretado pelas atrizes tailandesas Pansa “Milk” Vosbein e Pattranite “Love” Limpatiyakorn, rapidamente se tornou um ponto de virada.
A primeira série completa da GMMTV sobre sexualidade global, 23.5 Degrees That the World is Tilted, é uma adaptação do romance homônimo.
Wasawat Lukharang / BBC News Thai
“Percebemos que havia uma tendência: as pessoas estavam falando sobre esse casal de forma significativa e começaram a pedir uma série com um casal principal formado apenas por duas mulheres”, diz Chaiyahwimhon.
A GMMTV respondeu encomendando sua primeira série Girls’ Love completa, chamada 23.5, adaptada do romance homônimo e estrelada pelas mesmas duas atrizes, no papel de Ongsa e Sun.
Mas, quando a série foi ao ar, em 2024, a principal emissora aberta, o Canal 3, antecipando a tendência, já exibia GAP The Series, o primeiro grande sucesso Girls’ Love, em toda a Tailândia, que tem uma população de 70 milhões, e no YouTube, onde rapidamente acumulou mais de 300 milhões de visualizações.
Antes do final do ano, 21 séries Girls’ Love haviam sido produzidas e 51 casais formados apenas por mulheres haviam sido criados, de acordo com a empresa de análise de mídia Rocket Media Lab.
Entretanto, diversas turnês de encontro com fãs do gênero Girls’ Love esgotaram ingressos na China, Taiwan, Filipinas, Japão, Singapura, Camboja e até mesmo nos Estados Unidos.
No Brasil, a atriz tailandesa Mae Metharkarn reuniu centenas de fãs em um encontro em São Paulo em maio do ano passado.
Pansa “Milk” Vosbein (à esquerda) e Pattranite “Love” Limpatiyakorn interpretaram o casal Ink e Pa, em papéis coadjuvantes na série Bad Baddy, antes de estrelarem sua própria série
Napasin Samkaewcham / BBC News Thai
Parte do apelo reside em como as histórias de Girls’ Love tailandesas divergem das representações globais anteriores de relacionamentos lésbicos.
Globalmente, personagens lésbicas, gays ou bissexuais têm sido frequentemente associados a desfechos trágicos ou desaparecimentos repentinos das tramas, observa Eva Cheuk-Yin Li, professora assistente de indústrias audiovisuais no King’s College London, no Reino Unido.
“Quando olhamos ao redor do mundo, a quantidade de histórias contadas na televisão sobre amor entre mulheres do mesmo sexo é bastante limitada, mesmo em Hollywood, e frequentemente vemos personagens lésbicas sendo mortas na tela, ou terminando com finais infelizes ou trágicos. Isso é o que chamamos de ‘síndrome da lésbica morta’, onde personagens LGBT frequentemente têm vidas trágicas na tela.”
Mas o GL tailandês rompe com essa narrativa.
“O que realmente destaca o romance entre garotas na Tailândia em meio a toda essa representação”, diz Li, “é que geralmente existe um arco de personagem muito mais completo. Os casais enfrentam desafios, mas normalmente têm um relacionamento mais gratificante e feliz, ou até mesmo um final feliz, na maioria das histórias.”
Por causa de sua paixão pelas séries Girls’ Love tailandesas, a brasileira Luiza Z viajou com sua mãe por dois meses pela Tailândia, o que ela descreve como “a melhor viagem” da sua vida
Luiza Z via BBC
Ela acrescenta, no entanto: “As personagens principais das séries tailandesas de romance entre garotas tendem a ser bastante femininas, embora algumas tenham personalidades fortes. Na vida real, existem lésbicas de várias formas e tamanhos diferentes, então acho que ainda existem algumas preocupações com a diversidade na representação.”
A fã brasileira Luiza Z disse à BBC News Thai que assistir a dramas tailandeses de Girls’ Love foi a primeira vez que sentiu que “o amor entre duas mulheres poderia ser a história principal, e não apenas uma história secundária”.
“Foi tão bonito o jeito como elas se conectaram, a maneira como apresentaram a profundidade do relacionamento, as dificuldades e as emoções”, diz ela. E os finais felizes a fazem se sentir “aceita”.
“[Histórias] Girls’ Love da Tailândia sempre terminam com um final feliz — e estamos felizes que seja assim, onde não precisamos nos preocupar com a eliminação dessas duas personagens ou que elas não terão um final feliz.
“Sabemos que elas ficarão juntas no final e isso é reconfortante — nos sentimos validadas.”
O fenômeno Girls’ Love foi ainda mais impulsionado pela facilidade que audiências no mundo têm a conteúdos internacionais. Muitas séries estão disponíveis no YouTube, frequentemente com legendas em vários idiomas.
E isso remove barreiras para fãs em países com regulamentação rígida da mídia, incluindo China e Indonésia, onde o conteúdo homossexual é restrito.
Nos últimos anos, a China fechou dezenas de milhares de sites e contas de mídia social contendo o que seus censores chamam de conteúdo “vulgar” e pornográfico ou outro material considerado ilegal ou “antichinês”.
Como resultado, o público vê cada vez mais o conteúdo Girls’ Love estrangeiro como um espaço cultural seguro.
“Um dos meus filmes lésbicos… foi visto na Arábia Saudita mais do que em qualquer outro país”, disse a diretora Rachel Dax, radicada no Reino Unido, à BBC.
A cineasta Rachel Dax afirma que o Girls’ Love ajuda lésbicas em sociedades conservadoras a perceberem que sua sexualidade é algo a ser celebrado
Rachel Dax via BBC
“Em países onde existem leis anti-gays muito rígidas, para algumas mulheres será a única afirmação positiva que elas recebem sobre a realidade de sua sexualidade e isso pode ser tratado de forma positiva. Esses filmes ajudarão as pessoas.”
Alguns fãs acreditam que o aumento da visibilidade também está mudando sutilmente as atitudes na sociedade tailandesa.
Ranuka Songmuang, que administra uma página de fãs de filmes Girls’ Love, diz que a reação simples de sua mãe ao gênero é típica. “Eu gosto da série The Secret of Us”, disse sua mãe. “A médica [uma das personagens principais] é linda.”
Mas a Tailândia já é um dos países mais liberais da Ásia no que diz respeito à integração de relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo na sociedade cotidiana. Ela possui uma lei de casamento igualitário, assim como Taiwan e Nepal, por exemplo.
Nas Filipinas, há uma crescente aceitação de casais LGBT vivendo juntos abertamente. Mas a Igreja Católica Romana, que desempenha um papel importante na sociedade filipina, se opõe veementemente ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.
E existem obstáculos significativos em alguns outros países, como Malásia, Indonésia e Brunei, onde há menos aceitação de relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo. Em Brunei, por exemplo, o sexo entre homens é punível com pena de morte, embora na prática o país não execute mais pessoas por nenhum crime.
Algumas tramas de dramas Girls’ Love abordam o preconceito de frente. Em Poisonous Love, a protagonista Pat implora aos pais de sua amada, Prem, que permitam que elas continuem namorando, mas o pai de Prem ordena que terminem.
“Nosso amor é sincero e puro”, diz Pat, chamando os pais de Prem de “Mãe e Pai”.
Ranuka Songmuang diz que vem esperando há anos que a mídia tradicional aborde o amor lésbico
Wasawat Lukharang / BBC News Thai
“Não ouse me chamar de Pai”, responde o pai de Prem. “Estou enojado.”
O caminho percorrido pelo romance de Ongsa e Sun acaba sendo muito mais tranquilo, com um final feliz firmemente estabelecido no horizonte para os fãs de 23.5.
Quando Sun pergunta como eles lidariam se tivessem que passar um ano separados, Ongsa responde: “Não importa quantos anos-luz nos separem, ficaremos bem. No final, nossas órbitas nos levarão a nos encontrar novamente.”
“Porque a Terra (Earth) foi feita para estar com o Sol (Sun).”

Fonte: G1 Entretenimento

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