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Home»Entretenimento»Joyce Moreno toma partido da MPB e do povo brasileiro no alto voo musical e poético do show ‘Passarinho urbano’
Entretenimento

Joyce Moreno toma partido da MPB e do povo brasileiro no alto voo musical e poético do show ‘Passarinho urbano’

junho 3, 2026Nenhum comentário0 Visitas

Joyce Moreno apresenta o show ‘Passarinho urbano’ no Teatro Ipanema, no Rio de Janeiro (RJ), na noite de ontem, terça-feira, 3 de junho
Rodrigo Goffredo
♫ CRÍTICA DE SHOW
Título: Passarinho urbano
Artista: Joyce Moreno
Data e local: 3 de junho de 2026 no Teatro Ipanema (Rio de Janeiro, RJ)
Cotação: ★ ★ ★ ★ ★
♬ Joyce Moreno tomou partido no alto voo de “Passarinho urbano”, show que pousou no Teatro Ipanema na noite de ontem, terça-feira, 3 de junho, quase sete anos após ter estreado em outubro de 2019 na mesma cidade do Rio de Janeiro (RJ), terra natal da cantora, compositora e violonista carioca.
O partido foi o mesmo tomado pela artista em 1975 quando, a convite do compositor e produtor italiano Sergio Bardotti (1939 – 2007), Joyce gravou em Roma um álbum como intérprete, abordando músicas de compositores brasileiros censurados por estarem levantando a voz contra a ditadura que asfixiava o país desde 1964.
Intitulado “Passarinho urbano”, o álbum italiano de Joyce Moreno foi lançado em 1976 de forma discreta, como a cantora contou ao público ao voltar para o bis, no qual abordou “Queremos saber” (Gilberto Gil, 1976) e cantou o samba “Juízo final” (Nelson Cavaquinho e Élcio Soares, 1973) a capella, em feitio de oração, acompanhada pelo coro do público esperançoso de dias melhores.
Só que o álbum “Passarinho urbano” virou cult ao longo dos últimos 50 anos, ganhou reedição em LP e gerou o show feito por Joyce de forma eventual desde 2019.
“Passarinho urbano” é show de voz e violão, e isso basta no caso de Joyce Moreno, excepcional violonista e cantora de afinação e musicalidade extremas. Aberta com o canto a capella de “Joia” (Caetano Veloso, 1975), a apresentação de ontem se impôs como um momento de puro amor à música, para citar verso da canção de Caetano. Tudo se afinou, do roteiro perspicaz – construído com alguns medleys temáticos – à bela luz do show.
Joyce Moreno canta o samba ‘Juízo final’ em feitio de oração no encerramento do show ‘Passarinho urbano’
Rodrigo Goffredo
Em atmosfera de encantamento, Joyce Moreno mostrou que doma o ritmo com naturalidade desde que, munida do violão de toque admirado até pelo soberano Antonio Carlos Jobim (1927 – 1994), caiu no samba “De frente pro crime” (João Bosco e Aldir Blanc, 1974), disparando flash urbano da violência na selva das cidades.
Na sequência, a cantora encadeou três músicas – “Pesadelo” (Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro, 1972), “Bodas” (Milton Nascimento e Ruy Guerra, 1973) e “Clube da Esquina” (Milton Nascimento, Lô Borges e Marcio Borges, 1970) – que soaram como canções de resistência no Brasil dos anos 1970 por retratarem tempos sombrios de canhões e tristezas indefesas por todo o país.
Se o samba-enredo “Amor à natureza” (Paulinho da Viola, 1975) – pioneiro no ativismo ambiental – simbolizou um respiro, o sagaz medley que linkou “Chora doutor” (J. Campos, J. Piedade e Orlando Gazzaneo, 1958) – samba lançado pelo cantor Blecaute (1919 – 1983) – com “14 anos” (Paulinho da Viola, 1966) pôs na avenida a desigualdade que opõe doutores e sambistas na escala social.
Na sequência, “A história do samba” (Geraldo Figueiredo, 1976) – música lançada por Joyce no álbum “Passarinho urbano”, mote de roteiro que extrapolou o repertório do LP – surtiu efeito onomatopaico com o canto dos versos “Eu te cutuco, eu te cutuco, não cutuca / Eu te cutuco, não” simulando suave batucada na voz de Joyce e no coro feito pelo público a pedido da artista.
Se o Carnaval ameniza as dores do povo que se une e canta com vontade, como sublinharam versos do samba “Pede passagem” (Sidney Miller, 1966), a “Marcha da quarta-feira de cinzas” (Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, 1962) repõe a dura realidade no desfile do dia-a-dia, como cantou Joyce.
Além da refinada musicalidade de Joyce Moreno, o que engrandeceu a apresentação do show “Passarinho urbano” no projeto “Terças no Ipanema” – orquestrado pela curadora Flávia Souza Lima para ocupar com shows o lendário teatro carioca – foi o sentido social e político do roteiro construído com astúcia e precisão pela artista.
Seja na exaltação feminina do samba autoral “Mulheres do Brasil” (Joyce Moreno, 1988), seja no canto de “Querelas do Brasil” (Maurício Tapajós e Aldir Blanc, 1978), a artista teceu teia em que, através do samba, tocou em feridas e mazelas nacionais sem fazer panfleto. As letras das músicas falaram por Joyce Moreno.
Se o baião “Minha história” (João do Vale e Raimundo Evangelista, 1965) apontou a falta de estudo com obstáculo para a mobilidade social das classes pobres, o samba “Favela” (Padeirinho da Mangueira e Jorginho Pessanha, 1966) demarcou a criação das comunidades diante dos desajustes habitacionais urbanos, assunto do samba seguinte, “Saudosa maloca” (Adoniran Barbosa, 1955) em mais um exemplo da arquitetura engenhosa do roteiro.
Com direito à alfinetada nos candidatos a malandros federais, o samba “Homenagem ao malandro” (Chico Buarque, 1978) seguiu por trilho que conduziu a cantora e violonista a outro samba que fala na Central do Brasil, “O trem atrasou” (Arthur Vilarinho, Estanislau Silva e Francisco da Silva Fárrea Júnior, o Paquito, 1941), lançado pelo cantor Roberto Paiva (1921 – 2014) e revivido em 1965 na voz antenada de Nara Leão (1942 – 1989).
E aqui cabe ressaltar que algumas músicas amealhadas por Joyce Moreno para o roteiro (flexível) do show “Passarinho urbano” na apresentação de ontem – “Opinião” (Zé Kétti, 1964), “Pede passagem”, “Minha história”, “Marcha da quarta-feira de cinzas” e “Favela”, além do supracitado samba “O trem atrasou” – frequentaram o repertório ativista de Nara Leão entre 1964 e 1966, anos de resistência em que Nara tomou o mesmo partido de Joyce Moreno na luta por democracia e justiça social.
Como o Brasil ainda é terra de injustiças, longe de cumprir o ideal vislumbrado por Chico Buarque e Ruy Guerra em verso de “Fado tropical” (1973), música do cinquentenário álbum de 1976 que ecoou na apresentação de ontem, Joyce Moreno tomou mais uma vez esse partido no alto voo musical e poético do show “Passarinho urbano” em momento de puro amor à MPB e ao povo brasileiro.
Joyce Moreno segue roteiro engenhoso em que o encadeamento das músicas sublinha o tom político do show ‘Passarinho urbano’
Rodrigo Goffredo

Fonte: G1 Entretenimento

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