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Entretenimento

O dia em que Guimarães Rosa escapou da morte porque saiu para comprar cigarro

maio 13, 2026Nenhum comentário0 Visitas

Guimarães Rosa durante expedição ao sertão de Minas Gerais, em 1952
Eugênio Silva/Acervo do Museu Casa Guimarães Rosa
Numa madrugada de 1941, Guimarães Rosa acordou com vontade de fumar. Como não havia cigarro em casa, o cônsul-adjunto do Brasil em Hamburgo vestiu um sobretudo por cima do pijama e saiu para comprar um maço.
Em um café da vizinhança, ouviu uma sirene e correu para o abrigo mais próximo. Pela manhã, ao voltar para casa, o prédio onde morava havia sido reduzido a escombros. “Dizem que o cigarro mata. Mas aquele salvou minha vida”, ironizou.
Ainda na Alemanha, outro susto: um ataque aéreo havia destruído, parcialmente, o consulado onde Rosa trabalhava. Como o risco de desabamento era iminente, as autoridades alemãs proibiram a entrada de qualquer funcionário da representação na parte do imóvel que continuava de pé.
Rosa, porém, burlou a segurança, entrou no imóvel e retirou do cofre uma papelada confidencial. Ao sair de lá, o restante do prédio veio abaixo.
“Deus me reservava uma missão. Por isso, salvou-me da morte duas vezes”, segredou Rosa a Vilma, sua primogênita, que registrou a confidência do pai no livro de memórias Relembramentos (1983). “Duas vezes?”, espanta-se o jornalista Leonêncio Nossa, autor do recém-lançado João Guimarães Rosa – Biografia (Nova Fronteira e Topbooks).
“Rosa escapou da morte incontáveis vezes. Uma delas foi em 1958 quando sobreviveu a um infarto, aos 50 anos”.
João Guimarães Rosa – Biografia, de 736 páginas, é o primeiro livro do gênero dedicado ao autor de Grande Sertão: Veredas (1956).
Em 2007, Alaor Barbosa chegou a publicar Sinfonia de Minas Gerais – A Vida e a Literatura de Guimarães Rosa, mas o livro, por uma decisão da Justiça, foi recolhido um ano depois. A família de Rosa alegou que não tinha sido consultada e retirou a biografia de circulação. Desde então, a obra não foi mais relançada.
Leonêncio Nossa dividiu a biografia de Rosa em três partes: o médico (1908-1938), o diplomata rebelde (1938-1951) e o soldado (1951-1967).
A sugestão foi dada pelo próprio biografado em uma entrevista ao jornalista austríaco Günter Lorenz em 1965: “Como médico, conheci o valor místico do sofrimento; como rebelde, o valor da consciência; como soldado, o valor da proximidade da morte”. Há, entre outros anexos, uma linha do tempo e uma árvore genealógica.
Incrível, fantástico, extraordinário
Logo no prólogo, o biógrafo confirma a mais sobrenatural das histórias protagonizadas por Rosa: a de que uma cigana teria profetizado sua morte.
Supersticioso, o escritor adiou por quatro anos, três meses e oito dias sua entrada na Academia Brasileira de Letras. Acreditava que morreria no dia da posse. Eleito em 8 de agosto de 1963, Rosa só vestiu o fardão da ABL no dia 16 de novembro de 1967. Morreu três dias depois, em 19 de novembro de 1967.
A semana que antecedeu a posse na ABL foi de despedida. Rosa pediu a Vilma que, caso a premonição se realizasse, enviasse os originais de Estas Estórias e Ave, Palavra para o editor José Olympio. Em seguida, agendou um encontro com Agnes para depois da escola da neta. “Não se esqueça de mim”, pediu à pequena Maria de Lourdes, a Busi, de cinco anos. Vilma e Agnes eram filhas de Lygia Cabral Penna. Com Aracy Moebius de Carvalho, não teve filhos.
Por último, Rosa combinou um sinal com Austregésilo de Athayde, então presidente da ABL: se, durante o discurso, o imortal levasse a mão à testa, era para ele suspender imediatamente a sessão. “Você sabe, talvez seja bobagem, mas o mau pressentimento não me abandona”, comentou. “Rosa escolheu três acadêmicos para entrar com ele no salão principal. Nenhum tinha afinidade literária com o imortal. O critério de seleção? Os três eram médicos”, relata Nossa.
No dia da posse, já vestido com o fardão, Rosa relutou em sair de casa. “Não vou”, desabafou ao amigo Geraldo França de Lima. “Vou morrer”. No trajeto até a ABL, rezava o terço que a caçula deu de presente. Quando o carro chegou ao número 203 da Presidente Wilson, no Centro do Rio, Rosa, aflito, pediu ao motorista, Ubirajara, para dar voltas no quarteirão. “Para você, não tenho segredos”, voltou a dizer para França de Lima. “Não chego a dezembro”.
Aracy de Carvalho e Guimarães Rosa em Paris, em 1949
Acervo da Família
O discurso de posse de Guimarães Rosa demorou uma hora e 15 minutos. Duas frases entraram para a história: “A gente morre é para provar que viveu” e “As pessoas não morrem, ficam encantadas”. Ao chegar em casa, na Francisco Otaviano, em Copacabana, o mais novo ocupante da cadeira de número 2 soltou um longo suspiro: “Acabou, graças a Deus…”. Em seguida, tomou um copo de água com açúcar e seguiu para o quarto. Não tinha acabado. Ainda.
No domingo, três dias depois de tomar posse, Rosa começou a passar mal. Aos primeiros sintomas de dor no peito, telefonou para a secretária, Maria Augusta. “Estou morrendo”, balbuciou. “Desliga o telefone. Vou chamar o médico”, ordenou ela. “Esquece que sou médico? Sei que estou morrendo”, insistiu ele. Estava mesmo. Quando Aracy e a neta Vera voltaram da missa, encontraram Rosa caído no chão do escritório. Tinha sofrido um infarto.
Pacto com o diabo
Em entrevista a Nossa, a arquiteta Nora Rónai, viúva do tradutor Paulo Rónai e amiga do casal Rosa e Aracy, relata que, dias antes de tomar posse na ABL, o escritor parecia preocupado: acreditava ter feito, em algum momento de sua vida, um pacto com o diabo. O próprio Rosa, em entrevista ao jornalista Ascendino Leite, repórter de O Jornal, admite ter feito, na edição de 26 de maio de 1946, “pactos provisórios com o diabo”.
“Quando li a entrevista, fiquei intrigado. Que diabo é isso de ‘pacto provisório?’”, indaga Gustavo de Castro, doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
“É quando você faz um pacto com o demo para conseguir algo em troca, como um emprego ou uma namorada. Se você consegue o que quer em três meses, paga um boi, uma cabra ou um bezerro. Mas, se morre neste período, sua alma passa a ser dele”.
Professor de Estética da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB), Castro é autor de outra biografia de Guimarães Rosa, ainda sem título definido. A previsão é que o livro seja publicado no segundo semestre de 2026. Além da biografia, a Companhia das Letras planeja lançar, este mês, um audiobook de Grande Sertão: Veredas narrado pelo ator Caio Blat e, em junho, uma edição comemorativa do romance publicado em 1956.
De tudo que chamou sua atenção em Guimarães Rosa, o biógrafo destaca a polimatia dele. “Era uma espécie de Leonardo da Vinci mineiro”, define. Um dos assuntos que mais interessavam ao biografado era o diabo. Havia, em sua biblioteca, livros e mais livros sobre o cramulhão. “O pacto de Riobaldo com o diabo em Grande Sertão: Veredas é de uma riqueza de detalhes impressionante. Rosa era um profundo conhecedor do tema”, explica Castro.
Sobre um dos maiores clássicos da literatura brasileira, uma curiosidade: Grande Sertão: Veredas, a princípio, seria uma das novelas de Corpo de Baile. No entanto, O Diabo na Rua No Meio do Redemoinho, seu título provisório, cresceu tanto que virou romance. Os dois títulos, a propósito, foram publicados em 1956: primeiro, Corpo de Baile, de novelas; depois, Grande Sertão: Veredas, o primeiro e único romance da carreira de Rosa.
Outra curiosidade de Grande Sertão: Veredas foi contada por Haroldo de Campos. Em 1966, durante um congresso de escritores em Nova York, Rosa confidenciou ao poeta: “Quando me vem o texto, fico nu, rolo no chão, luto com o demo de madrugada no meu escritório e depois, naquele impulso, escrevo”. “Quando ele falava do demo, não era uma metáfora. O horror da página em branco. Era uma coisa presencial, encarnada”, espantou-se Campos.
Pelas veredas do sertão
Rosa durante viagem ao sertão de Minas Gerais, em 1952
Eugênio Silva/Acervo Museu Casa de Guimarães Rosa
Em 1952, Rosa participou de uma expedição de nove dias pelo sertão mineiro. Montado no lombo de uma mula, percorreu 240 quilômetros, de Três Marias a Araçaí. No percurso, fez anotações em seis cadernetas. “Não se pode afirmar que a ideia de escrever Grande Sertão: Veredas tenha surgido nessa viagem”, admite a pesquisadora Mônica Meyer, autora de Ser-Tão Natureza (UFMG).
“Mas, há passagens do livro que reproduzem trechos da viagem: o lugar aprazível onde Riobaldo conhece Otacília, por exemplo, é inspirado na Fazenda Santa Catarina e na Vereda São José”.
Toda quarta, das 18h às 20h, cerca de 60 pessoas se conectam para ler a obra de Guimarães Rosa.
A iniciativa é do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), da Universidade de São Paulo (USP), que fundou, em 2003, a Oficina de Leitura João Guimarães Rosa.
“Até 2020, os encontros eram presenciais. Mas, depois da pandemia, passaram a ser virtuais”, explica Rosa Haruco Tane, uma das coordenadoras. “Todos os livros do autor já foram lidos. Mas, sem dúvida, os que atraem maior interesse são Sagarana (1946), Corpo de Baile (1956) e Grande Sertão: Veredas (1956)”.
O perigo está no ar
João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, cidadezinha a 115 quilômetros de Belo Horizonte, no dia 27 de junho de 1908.
A casa onde viveu até os nove anos virou museu, em 1974. Estão lá, entre outros objetos pessoais, a máquina de escrever, o espadim da ABL e a coleção de gravatas-borboletas. “Por ano, cerca de 25 mil pessoas visitam o Museu Casa Guimarães Rosa”, calcula o atual coordenador da instituição, Ronaldo Alves. “Desses, 97% são turistas”.
Máquina de escrever de Guimarães Rosa no Museu Casa Guimarães
Rosa Ronaldo Alves
Em 1925, aos 16 anos, Rosa ingressou na Faculdade de Medicina de Minas Gerais, atual Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Formado, transformou a casa em Itaguara em clínica. À noite, saía a cavalo para atender os pacientes. Muitos deles, como forma de pagamento, ofereciam bolos, aves e doces. Do que ele menos gostava? De fazer partos e de tratar a lepra. “Pela minha profunda tristeza de não poder salvar alguns doentes, abandonei a medicina”, confessou.
Como diplomata, Rosa serviu em Hamburgo, de 1938 a 1942. “Mais de uma vez, expressou mal-estar com a discriminação aos judeus”, afirma Georg Otte, vice-diretor da Faculdade de Letras da UFMG, referindo-se ao inédito Diário de Hamburgo. “Não há menção sobre a ajuda aos judeus para escapar da perseguição nazista. Provavelmente, não queria que a ação fosse descoberta”. Rosa trabalhou, ainda, em Bogotá, de 1942 a 1944, e em Paris, de 1948 a 1951.
Rosa conheceu e se apaixonou por Aracy, secretária do consulado brasileiro em Hamburgo, em 1938. Juntos, os dois ajudaram judeus perseguidos pelo nazismo a fugirem para o Brasil. “Certa vez, desenhou uma caricatura de Hitler, enforcado. Mas, cometeu a imprudência de guardá-la no seu escritório”, relata Vilma em Relembramentos. “Aquele desenho, porém, nunca nos chegou às mãos. Papai desconfiava de que algum funcionário-espião o tivesse surrupiado”.
Guimarães Rosa em seu gabinete de trabalho, em 1958
Arquivo Público Minas Gerais
A um passo da insanidade
Foi no Rio de Janeiro que Guimarães Rosa conheceu Heloísa Vilhena de Araújo. Quando ela começou a trabalhar no Itamaraty, em 1963, ele já chefiava a Divisão de Fronteiras do Ministério das Relações Exteriores (MRE). Certo dia, os dois se encontraram, por obra do acaso, em um restaurante apelidado de “Bife de Zinco”. “Ele gostava de saber o que pensava a nova geração de diplomatas”, conta a autora do livro Guimarães Rosa: Diplomata (1987), hoje com 86 anos.
“Certa vez, ele me perguntou se eu rezava. Não sei exatamente a respeito do que estávamos conversando. Respondi que não. Ele retrucou: ‘Eu rezo sempre. Tenho medo de cair na loucura’. Naquele momento, não entendi. Mais tarde, depois de ter lido e relido sua obra, é que pude vislumbrar o significado daquela informação. Em Grande Sertão: Veredas, Riobaldo também quer rezar o tempo todo. A pergunta dele foi uma revelação”.
No livro, Vilhena reproduz a carta que Rosa escreveu para o então cônsul em Frankfurt, Jorge Kirchhofer Cabral, em 1940. Seria uma carta como outra qualquer não fosse por um detalhe rosiano: todas as 431 palavras, da saudação (“Caro Cônsul Colega Cabral”) ao pós-escrito (“Confirme chegada carta, comunicando-me com cartão”), são iniciadas pela letra C. “Ele tinha uma obsessão quase enciclopédica pela palavra escrita”, afirma Castro.
Em 1985, quando gravou a minissérie Grande Sertão: Veredas, escrita por Walter George Durst e dirigida por Walter Avancini, Bruna Lombardi também tinha, como Guimarães Rosa, medo de ‘cair na loucura’. Para não perder a razão, a intérprete de Diadorim começou a rabiscar as primeiras páginas de um diário. Publicado originalmente em 1986, Diário do Grande Sertão será relançado, revisto e ampliado, pela Editora Autêntica ainda este ano.
“Escrevi o diário in loco, direto das gravações. Foi uma minissérie nômade. Não havia locação. O sertão era a nossa locação. Às vezes, escrevia o diário no lombo de um cavalo. Outras, no meio do mato. Muitas vezes, nem eu mesma entendia o que tinha escrito”, relembra a atriz.
Vídeos em alta no g1

Fonte: G1 Entretenimento

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